Nestes
dias o povo brasileiro festeja, com exuberância de
folclore, a festa de São João Batista. É
bom para o povo ter motivos de alegria. Sobretudo os que
brotam de longa tradição, como é o
caso dos festejos de São João. A alegria dos
simples encontra o seu fundamento na garantia do Evangelho:
"seu nascimento será alegria para todo o povo".
No dia 24 de junho o povo celebra o nascimento de João
Batista. Não faria mal lembrar também sua
morte, que a Igreja lembra no dia 29 de agosto. Interessante
como ela passa desapercebida.
A
morte deste grande profeta tem um recado importante, sempre
válido.
João
pagou com a vida a denúncia corajosa dos desmandos
de sua época. Com o vigor de sua autenticidade e
da austeridade dos seus costumes, advertia a todos, alertando
para a urgência da mudança de mentalidade e
de posturas éticas. Ninguém ficava fora de
suas admoestações. Desde o povo simples, que
se impressionava com as palavras do austero profeta, até
as autoridades religiosas, que se inquietavam com a influência
exercida por alguém desprovido de incumbências
formais, mas cheio de uma autoridade moral incontestável.
Foi
o confronto com a política que levou o profeta ao
testemunho radical de sua vida. Diante de Herodes, não
teve medo de interpelar sua conduta. Com o dedo em riste,
teve a coragem de lhe dizer com clareza: "Não
te é lícito!".
Assim,
colocava com clareza o pressuposto ético, de que
a política também precisa ter parâmetros
que lhe definem a legitimidade, e critérios que lhe
apontam os procedimentos. O poder, por sua natureza, mais
que qualquer outra situação humana, precisa
de balizamento ético, para não se tornar instrumento
da prepotência ou agente da decadência moral
da sociedade.
Recuperar
o vigor da ética, para que ela tenha incidência
prática sobre o procedimento humano em todas as esferas
da vida, é uma urgência que se impõe,
diante do perigo de falência moral que hoje o mundo
enfrenta. Como fazer?
João
Batista nos dá um testemunho válido. Ele se
imbuiu de austeridade e de autenticidade. E’ urgente
voltarmos à sobriedade e à busca prioritária
dos valores básicos da existência, sacudindo
frivolidades que nada ajudam para a vivência salutar
das pessoas.
João
se retirou ao deserto. Era o contexto do projeto original
do povo, que precisava ser resgatado. Esta a intuição
do profeta. Esta a necessidade que também temos.
E’ urgente mergulhar nas águas de nossa trajetória
histórica, para recuperarmos o projeto de nação,
que corre o risco de ser diluído por veleidades de
uma globalização superficial, irresponsável
e traidora de nossos valores históricos.
João
se afastou da vida do povo. Mas não para se alienar.
Ao contrário, para ter mais autoridade de fazer os
questionamentos que se faziam necessários. Muitos
pedem que a Igreja se afaste da política. Há
um distanciamento que lhe confere mais autoridade para a
palavra que ela tem a dar. Esta será tanto mais vigorosa
quanto mais coincidir com as urgências éticas
que precisam ser feitas hoje para a toda a sociedade.
Diante
de Herodes, João foi incisivo e contundente. Não
se amedrontou com o tirano. Pouco importa a incidência
concreta da advertência do profeta. Naquela oportunidade,
na mira da acusação estava Herodíades,
a adúltera corrupta e corruptora. Era o desvirtuamento
que estava em causa.
Eliseu
suplicou o manto de Elias para continuar a missão
profética. Hoje precisamos revestir-nos do vigor
ético e da coragem de João Batista para denunciar
a corrupção política. Para que o povo
tenha a esperança de ver brotar do deserto um novo
caminho de vida.